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| Fernanda Young. |
Fernanda Young, tudo que você não soube, Rio de Jneiro: Editouro,2007.
Fernanda Maria Young de Carvalho Machado (Niterói, 1 de maio de 1970) é uma escritora, atriz, roteirista e apresentadora de televisão brasileira. Fernanda Young tem vários romances publicados: Vergonha dos pés, A sombra das vossas asas, Carta para alguém bem perto, As pessoas dos livros, O efeito urano, Aritmética e, o mais recente, tudo que você não soube. Lançou um livro de poesias, Dores do amor romântico, e fez algumas letras de músicas. Escreve também para televisão, teatro e cinema. Tem uma coluna mensal na revista Claudia e um programa no canal GNT, chamado Irritando Fernanda Young. Fernanda, entretando, faz questão de repetir que são romances o que sabe fazer de melhor. Se você a conhece apenas pelas outras coisas que ela faz, talvez seja uma boa oportunidade de prová-las em sua especialidade.
Alguém que comete um ato monstruoso é necessariamente um monstro? Fernanda Young resolveu investigar essa questão através de uma pista altamente suspeita: sua própria imaginação.
Temos uma personagem principal sem nome, escrevendo para um pai que está morrendo. Quer contar tudo que ele não soube sobre a vida dela, antes que seja tarde demais. Os motivos que a levam a fazer usso, porém, são os piores possíveis. Mas isso não é, nem de longe, o que de mais condenável ela já fez. Ela fez aquilo que não se faz de jeito nenhum. Deu vazão, sem piedade, ao mais terrível instinto freudiano. Pegou um martelo e acertou a cabeça da mãe. Você, claro, jamais faria isso, certo? sob circunstância alguma, não é? Engraçado, a personagem deste livro é estranhamente parecida com você.
A leitura do livro proporciona um mergulho nas relações familiares conturbadas e nos questionamentos de uma jovem contemporânea a cerca de sua vida traumatizada , a seu ver, devido ao relacionamento pais versus filhos.
Tendo três personagens principais: a mãe, o pai e a filha e outros personagens secundários. A história é contada por uma mulher, cujo o nome não é revelado, beirando os quarenta anos, boa mãe, esposa, dona de casa, aparentemente equilibrada, que decide escrever um livro para o pai que está no leito da morte, contanto tudo o que sentiu e sente pelo desprezo, abandono e omissão recebidos por parte de seus familiares. por ter tentado matar a mãe a marteladas, pois a mesma a menosprezava por ela não fazer parte do padrão normal de menina comum, a personagem se sente obrigada a escrever a seu pai revelando os motivos do ato cometido e toda sua amargura por nunca ter tido o mesmo presente em sua vida. Não se trata de um diário repleto de culpas e pedidos de perdão, mas sim um relato cheio de reflexões quanto à infância e a juventude passadas num reformatório e exposição de uma mulher amargurada por ter convivido com uma família desestruturada pela falta de amor. A preocupação da personagem é mostrar ao pai que ela não é uma menina careta e frágil como eles a queriam. E sim que poderia ser dona do seu destino e fazer o que bem entendesse. O acerto de contas com o pai vem de madrugada, quando ela se desliga da vida de mulher, dona de casa e mãe e é levada ao passado se mostrando um poço de desamparo e solidão. "Sigo me movendo por inércia, cadáver distraído." (Young, 2017, p 45). De um lado o desdém, se mostrando completamente indiferente ao casamento e ao marido, e por outro lado necessitando desabafar ao pai e mostrar seus motivos, mas principalmente suas angústias que para ela são consequências exatamente da falta de amor. "Trata-se da vida da sua única filha, aquela que jamais você se interessou em conhecer, mesmo quando se tornou um caso de polícia ." (Young, 2017, p 17). A personagem tem como escrita uma forma de alívio diante da amargura de não ter tido uma família feliz e de nunca ter sido notada, amada e até mesmo respeitada. A mãe da personagem, que nunca sequer olhou nos olhos da filha, tenta impor um padrão para filha, até mesmo o ato de escolher com quem a filha irá namorar. O ato mais chocante do livro acontece quando a protagonista, esgotada de tudo o que a mãe fez e principalmente o que não fez, a personagem é levada por uma fúria depois de brigar com a mãe que ela simplesmente martelou a mãe com a intenção de matá-la na cozinha de casa, que embora tenha falhado no ato, deixou a mãe invalida para o resto da vida.
É um tanto difícil analisar este livro, acho que muitas pessoas poderiam repudiá-los e joga-lo no lixo antes de chegar na décima página. A escrita, cheia de virgulas e capítulos curtos jogados como desabafos, berrado na orelha de um pai morrendo pode ser bem perturbador. Para quem gosta de ler algo com uma linguagem, digamos, sem limites, podendo ser julgado como repugnante e grosseiro, está aí uma boa indicação. Um livro com dramas do começo ao fim, despertando a curiosidade em saber se a personagem irá conseguir exteriorizar tudo o que deseja, o que acontecerá quando ela o fizer e mais ainda, se em algum momento ela irá pedir perdão pelo ato cometido.