Artista: Vincent
van Gogh
Dimensões: 74 cm x
92 cm
Localização: Museu de
Arte Moderna
Criação: junho de 1889
Períodos: Pós-impressionismo, Arte
moderna
Mídia: Lona, Tinta a óleo
“A noite estrelada“ , por Aline Wivian
Noite
fria de um misero outono, todos dormiam no aconchego de suas camas, macias e
com cobertores que saciavam o frio. Nas ruas da cidade de Bruxelas não ouvia-se
um barulho sequer, a não ser o barulho do silêncio, que para Eduard, era o pior
dos barulhos. Enquanto todos dormiam, ele observava a noite, e seus mistérios.
Olhava as estrelas que brilhavam fortemente nos seus olhos, ficavam ainda mais
misteriosas “dentro” daquele céu negro. Levantou-se para pegar seu cigarro, que
já havia feito-lhe muito mal. Uma relação de amor e ódio paradoxalmente se
instalava. Sabia que aquilo estava o matando aos poucos. Mas sentia que sem
ele, o cigarro, morreria muito mais rápido. Pôs levemente entre os dedos, e com
um isqueiro o acendeu. A chama do isqueiro chamava-lhe a atenção, mesmo depois
de ter acesso o cigarro, continuava a observar a chama. Na outra mão estava um
copo americano que ganhara de sua falecida esposa, com dois “dedos” de whisky. O
charuto e a bebida eram sua companhia, depois que sua esposa faleceu de um
trágico acidente de carro. Eduard tem sequelas desse terrível e traumático
acidente. Mas as sequelas físicas eram uma minudência perto dos traumas
psicológicos que o possuía gradativamente. Ele quem dirigia o carro, era
madrugada de uma sexta-feira, o céu estava estrelado, a noite era fria, como de
costume, antes de dirigir, Tragava um cigarro, e tomava um pequeno gole de
whisky. Elizabeth, sua esposa, estava animada para o final de semana que iria
passar com sua família. Todos os anos eles viajavam, esse ano não seria
diferente. Na metade do caminho, Elizabeth pôs no som do carro sua música
favorita, eles cantavam alegremente e admiravam o céu estrelado. Elizabeth
amava noites frias com céu estrelado. Não demorou muito e ela adormeceu, Eduard
dirigia e olhava atentamente sua esposa, estava admirando-a. começa a chover,
Eduard estava com sono, pensou em parar para descansar um pouco, mas sabia da
ansiedade de Elizabeth para ver sua família. Logo desistiu e continuou a
dirigir, lutava contra o sono, seus olhos estavam cada vez menores e vermelhos,
o sono consumia-lhe, mas a vontade de ver sua esposa feliz também. A chuva caia
com uma fúria que crateras eram abertas facilmente. Logo um céu acinzentado
tomou conta daquele céu estrelado que os dois admirara há minutos antes.
Elizabeth acorda, olha para Eduard, era como um olhar de despedida, um olhar
que transmitia amor. Mas logo depois ouve-se um grito desesperador de
Elizabeth. Eduard perdeu o controle do carro ao olhar para ela, o carro capota
oito vezes e em seguida cai de uma ribanceira, ouve-se apenas o barulho da
chuva. Elizabeth morre na hora, Eduard é internado com ferimentos gravíssimos,
mas sobrevive. Para ele, preferira ter morrido naquele dia, pois agora, ele
morre todos os dias, lentamente. Talvez por isso, a noite seja um tormento para
ele. Com passos leves e barulhentos,
arrastava a sua chinela de dedo no chão, seus pés estavam com meias azuis,
andava em direção a janela, que estava aberta. O vento era tão forte que ficava
cada vez mais difícil chegar até a janela, que abria e fechava com uma fúria
imensa. Com muito esforço, ele conseguiu alcança-la, sentou nela, pôs os pés
para fora de casa e continuou a olhar para o céu estrelado. O vento acabara de
derrubar o último cigarro que lhe restava no chão, rapidamente o vento o levou
para longe, e cada vez mais longe... Eduard olhava o cigarro se afastando com
fúria nos olhos, pois era o último do maço. Também era madrugada, certamente
não haveria nada aberto. Nem um mercado, nem uma venda, nem uma daquelas
barracas que ficavam ocupando espaço nas ruas da cidade. Mesmo tendo a certeza
de que não acharia nada aberto, ele pula a janela, mesmo tendo a chave da
porta, e segue angustiado, exasperado, em busca de um cigarro, que faça-lhe
esquecer da noite em que perdera Elizabeth. Anda rapidamente, seu semblante é
de dor, a noite estrelada traz a lembrança dos dois cantando alegremente a
música preferida de Elizabeth, ele consegue ouvir claramente sua voz doce, ver
seu sorriso aberto, que mais parece um vazamento de felicidade. Ele fica
desnorteado, começa a chover, o céu acinzentado aparece, e junto com ele, mais
sofrimento. Eduard já não se aguenta em pé, a dor toma conta não só do seu
psicológico, mas também do seu corpo, logo cai com os joelhos no chão molhado,
suas mãos vão á cabeça, em desespero ele puxa os cabelos, como se junto com
eles, fossem sair a toda a dor. Dor que o possui, dor que não o deixa fazer
nada, dor que o atormenta todos os dias, principalmente nos dias frios e com céu
estrelado. Cai no chão por completo, chora desesperadamente, as lágrimas
misturam-se com a forte chuva que cai, parece a mesma do dia do acidente. Acaba
adormecendo, acorda com o barulho das pessoas. Tudo volta ao normal na grande
cidade de Bruxelas, as pessoas vão trabalhar, barulho de automóveis, crianças
brincando na rua. Mas para Eduard, viver tornou-se um tormento. Todos os dias,
morre um pedaço dele. Morre suas vontades, seus desejos, sua felicidade... e o
que resta são as lembranças do passado. Eduard volta para casa, aguarda
ansiosamente o dia em que não acordará mais, que não sentirá mais dor, o dia em
que encontrará Elizabeth novamente.

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