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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A noite estrelada.




ArtistaVincent van Gogh
Dimensões74 cm x 92 cm
LocalizaçãoMuseu de Arte Moderna
Criaçãojunho de 1889
PeríodosPós-impressionismoArte moderna 

MídiaLona, Tinta a óleo

“A noite estrelada“ , por Aline Wivian

Noite fria de um misero outono, todos dormiam no aconchego de suas camas, macias e com cobertores que saciavam o frio. Nas ruas da cidade de Bruxelas não ouvia-se um barulho sequer, a não ser o barulho do silêncio, que para Eduard, era o pior dos barulhos. Enquanto todos dormiam, ele observava a noite, e seus mistérios. Olhava as estrelas que brilhavam fortemente nos seus olhos, ficavam ainda mais misteriosas “dentro” daquele céu negro. Levantou-se para pegar seu cigarro, que já havia feito-lhe muito mal. Uma relação de amor e ódio paradoxalmente se instalava. Sabia que aquilo estava o matando aos poucos. Mas sentia que sem ele, o cigarro, morreria muito mais rápido. Pôs levemente entre os dedos, e com um isqueiro o acendeu. A chama do isqueiro chamava-lhe a atenção, mesmo depois de ter acesso o cigarro, continuava a observar a chama. Na outra mão estava um copo americano que ganhara de sua falecida esposa, com dois “dedos” de whisky. O charuto e a bebida eram sua companhia, depois que sua esposa faleceu de um trágico acidente de carro. Eduard tem sequelas desse terrível e traumático acidente. Mas as sequelas físicas eram uma minudência perto dos traumas psicológicos que o possuía gradativamente. Ele quem dirigia o carro, era madrugada de uma sexta-feira, o céu estava estrelado, a noite era fria, como de costume, antes de dirigir, Tragava um cigarro, e tomava um pequeno gole de whisky. Elizabeth, sua esposa, estava animada para o final de semana que iria passar com sua família. Todos os anos eles viajavam, esse ano não seria diferente. Na metade do caminho, Elizabeth pôs no som do carro sua música favorita, eles cantavam alegremente e admiravam o céu estrelado. Elizabeth amava noites frias com céu estrelado. Não demorou muito e ela adormeceu, Eduard dirigia e olhava atentamente sua esposa, estava admirando-a. começa a chover, Eduard estava com sono, pensou em parar para descansar um pouco, mas sabia da ansiedade de Elizabeth para ver sua família. Logo desistiu e continuou a dirigir, lutava contra o sono, seus olhos estavam cada vez menores e vermelhos, o sono consumia-lhe, mas a vontade de ver sua esposa feliz também. A chuva caia com uma fúria que crateras eram abertas facilmente. Logo um céu acinzentado tomou conta daquele céu estrelado que os dois admirara há minutos antes. Elizabeth acorda, olha para Eduard, era como um olhar de despedida, um olhar que transmitia amor. Mas logo depois ouve-se um grito desesperador de Elizabeth. Eduard perdeu o controle do carro ao olhar para ela, o carro capota oito vezes e em seguida cai de uma ribanceira, ouve-se apenas o barulho da chuva. Elizabeth morre na hora, Eduard é internado com ferimentos gravíssimos, mas sobrevive. Para ele, preferira ter morrido naquele dia, pois agora, ele morre todos os dias, lentamente. Talvez por isso, a noite seja um tormento para ele.  Com passos leves e barulhentos, arrastava a sua chinela de dedo no chão, seus pés estavam com meias azuis, andava em direção a janela, que estava aberta. O vento era tão forte que ficava cada vez mais difícil chegar até a janela, que abria e fechava com uma fúria imensa. Com muito esforço, ele conseguiu alcança-la, sentou nela, pôs os pés para fora de casa e continuou a olhar para o céu estrelado. O vento acabara de derrubar o último cigarro que lhe restava no chão, rapidamente o vento o levou para longe, e cada vez mais longe... Eduard olhava o cigarro se afastando com fúria nos olhos, pois era o último do maço. Também era madrugada, certamente não haveria nada aberto. Nem um mercado, nem uma venda, nem uma daquelas barracas que ficavam ocupando espaço nas ruas da cidade. Mesmo tendo a certeza de que não acharia nada aberto, ele pula a janela, mesmo tendo a chave da porta, e segue angustiado, exasperado, em busca de um cigarro, que faça-lhe esquecer da noite em que perdera Elizabeth. Anda rapidamente, seu semblante é de dor, a noite estrelada traz a lembrança dos dois cantando alegremente a música preferida de Elizabeth, ele consegue ouvir claramente sua voz doce, ver seu sorriso aberto, que mais parece um vazamento de felicidade. Ele fica desnorteado, começa a chover, o céu acinzentado aparece, e junto com ele, mais sofrimento. Eduard já não se aguenta em pé, a dor toma conta não só do seu psicológico, mas também do seu corpo, logo cai com os joelhos no chão molhado, suas mãos vão á cabeça, em desespero ele puxa os cabelos, como se junto com eles, fossem sair a toda a dor. Dor que o possui, dor que não o deixa fazer nada, dor que o atormenta todos os dias, principalmente nos dias frios e com céu estrelado. Cai no chão por completo, chora desesperadamente, as lágrimas misturam-se com a forte chuva que cai, parece a mesma do dia do acidente. Acaba adormecendo, acorda com o barulho das pessoas. Tudo volta ao normal na grande cidade de Bruxelas, as pessoas vão trabalhar, barulho de automóveis, crianças brincando na rua. Mas para Eduard, viver tornou-se um tormento. Todos os dias, morre um pedaço dele. Morre suas vontades, seus desejos, sua felicidade... e o que resta são as lembranças do passado. Eduard volta para casa, aguarda ansiosamente o dia em que não acordará mais, que não sentirá mais dor, o dia em que encontrará Elizabeth novamente. 

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